Uma rápida história sobre o álbum “Led Zeppelin IV”

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O quarto álbum do Led Zeppelin, conhecido como Led Zeppelin IV, foi lançado no dia 8 de novembro de 1971 pela Atlantic Records. As gravações aconteceram em diversas localidades entre dezembro de 1970 e março de 1971. São vários os apelidos do LP (os mais conhecidos são The Fourth Album, Four Symbols, Untitled, The Runes, The Hermit e ZoSo).

Até hoje o disco é o maior sucesso comercial da banda, vendendo aproximadamente 32 milhões de cópias (23 milhões só nos Estados Unidos, se tornando o terceiro disco mais vendido da história do país).

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As sessões de gravação tiveram início no recém-inaugurado Basing Street Studios, da Island Records, em Londres (quando o Jethro Tull trabalhava no futuro clássico Aqualung). Por sugestão dos integrantes do Fleetwood Mac, o Led Zeppelin mudou suas instalações para a lendária Headley Grange, em East Hampshire, fazendo novas gravações no estúdio móvel da melhor banda de rock do mundo, os Rolling Stones.

A ideia de não dar um nome para o LP e sim usar símbolos feitos à mão (cada integrante teria o seu próprio design) partiu de Jimmy Page, que também não quis adicionar informações técnicas no encarte. Uma tentativa de vingança contra a imprensa e as críticas negativas em torno dos três álbuns anteriores da banda.

Image and video hosting by TinyPicA capa

A imagem que vemos na capa é uma pintura a óleo do século dezenove comprada por Robert Plant em uma loja de antiguidades de Berkshire, sudeste da Inglaterra. O desenho foi fixado na parede interna de uma casa demolida e assim saiu a fotografia da capa. A ideia de Plant era fazer um balanço do que já vinha ocorrendo na década de 1970: a devastação da natureza em meio ao caos urbano e a expansão das grandes cidades.

Já a ilustração interna, intitulada The Hermit (também conhecida como View in Half ou Varying Light) é creditada a Barrington Colby, influenciada por cartas do tarô. Reza a lenda que, ao colocar a imagem de frente para o espelho, um rosto pode ser visto entre as rochas, logo abaixo do Eremita (alguns conseguem ver a face de um cão negro, daí a teoria de que seria o “Black Dog” da música).

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Hoje, Led Zeppelin IV consta na lista dos 200 álbuns definitivos no Rock and Roll Hall of Fame, além de figurar entre os 500 melhores discos de rock de todos os tempos da revista Rolling Stone (a mesma que, décadas antes, havia massacrado os três primeiros discos do grupo). Três músicas ficaram de fora do tracklist: “Down by the Seaside”, “Night Flight” e “Boogie With Stu” (a última, com participação especial de Ian Stewart, o lendário sexto Rolling Stone). No ano seguinte, as sobras foram lançadas no álbum Physical Graffiti.

Na sequência, algumas curiosidades sobre todas as faixas de Led Zeppelin IV.

Black Dog

Ideia do baixista, John Paul Jones, que, influenciado pelo álbum Electric Mud, de Muddy Waters, criou um blues elétrico a partir de um riff de contrabaixo. O trecho inicial dos vocais, feito a capella por Robert Plant, teve inspiração na faixa “Oh Well”, do Fleetwood Mac (não custa lembrar que, antes de Stevie Nicks e Lindsey Buckingham se juntarem ao grupo, em 1974, o Fleetwood Mac era uma banda de blues psicodélico, liderada pelo guitarrista Peter Green). Com exceção do refrão, todas os versos são cantados por Plant após a pausa dos instrumentos. Uma das mais performances mais memoráveis do vocalista.

Rock And Roll

Mitologicamente criada durante uma jam session, quando a banda improvisava ao som de “Keep a Knockin’”, de Little Richard. Tudo teria sido feito em mais ou menos 15 minutos. A letra foi escrita por Robert Plant, que tentava provar que o Led Zeppelin podia sim fazer rock and roll (o álbum anterior do grupo era basicamente acústico). Nos pianos, Nicky Hopkins (que já tocou com The Who, The Rolling Stones, The Beatles, entre tantos outros).

The Battle Of Evermore

Eis a única canção do Led Zeppelin com participação de outra voz além da do vocalista, Robert Plant, que teria escrito a letra após ler um livro sobre a história da Escócia.

Observação fundamental: Fãs de Senhor dos Anéis e J. R. R. Tolkien, embora Robert Plant também seja admirador de Tolkien, a letra NÃO fala sobre a “Batalha dos Campos do Pelennor” (citada no livro e, posteriormente, no filme).

Além do belo dueto com Plant, Sandy Denny (do Fairport Convention) ganhou seu próprio símbolo no encarte do disco (a cantora foi representada por três pirâmides). Jimmy Page compôs os arranjos usando um bandolim emprestado pelo baixista, John Paul Jones.

Por incrível que pareça, parte da gravacão foi captada pelo engenheiro de som, Andy Johns, com os músicos sentados em frente a uma lareira, tomando chá e tocando bandolim.

Stairway to Heaven

Uma das canções mais famosas de todos os tempos, com um dos solos de guitarra mais famosos de todos os tempos, e por aí vai. Um clássico que, apesar de ser um dos hits radiofônicos mais tocados de todos os tempos, oficialmente nunca foi lançado como single. Algumas estações de rádio tinham apenas o compacto de divulgação da música (um verdadeiro tesouro para colecionadores nos dias de hoje).

Em 13 de novembro de 2007, quando todo o catálogo do Led Zeppelin foi relançado no formato digital, “Stairway to Heaven” alcançou a 37ª posição nas paradas de sucesso do Reino Unido e apesar de seus mais de oito minutos de duração, até hoje é uma das faixas mais tocadas das FMs dos Estados Unidos.

No final da década de 1990, a Monday Morning Replay anunciou que a canção já havia tocado 4.203 vezes (uma vez que o cálculo de execuções segue os padrões AOR). Ou seja, a faixa foi tocada 5 vezes por dia durante seus primeiros 3 meses de existência, duas vezes por dia durante os próximos nove meses, uma vez por dia durante os quatro anos seguintes, e de 2 a 3 vezes por semana nos próximos 15 anos.

Nos EUA existem (ou pelo menos existiam) mais ou menos 600 estações de AOR e Classic Rock. O que significa que “Stairway To Heaven” foi tocada no mínimo 2.874 vezes. Ao oitavo minuto de cada execução, somam-se aproximadamente 23 milhões de minutos. São quase 44 anos dedicados à música. Até agora.

A ASCAP (American Society of Composers, Authors and Publishers) não costuma divulgar números, mas diante desse monstro do rock, não pensaram duas vezes em compartilhar os dados.

Coincidência (ou não), “Stairway” é a única letra no encarte do LP.

Misty Mountain Hop

Atenção, fãs de J. R. R. Tolkien e “Senhor dos Anéis”. As tais “montanhas sombrias” citadas na música ficam no País de Gales, e sim, são uma referência a “O Retorno do Rei”, terceiro volume da série de livros. Mas legal mesmo é o piano elétrico introduzido por John Paul Jones.

Four Sticks

Composta pela dupla Page e Plant em 1970, durante uma viagem à India. A origem do nome é bem simples. John Bonham toca com quatro baquetas, duas em cada mão.

A banda apresentou “Four Sticks” ao vivo apenas uma vez em sua história, na Dinamarca, durante a turnê europeia de 1970.

Nos anos 1990, quando voltaram a excursionar juntos, Page & Plant tocaram a música um milhão de vezes (mas aí não conta).

Os vocais receberam alguns efeitos eletrônicos na produção final. “Supostamente, era pra soar abstrato”. Palavras de Robert Plant.

Going To California

Letra de Jimmy Page, que buscou inspiração em um de seus poemas rabiscados no caderno de anotações. Já os arranjos foram influenciados por Joni Mitchell e uma de suas obras-primas, “California” (lançada em 1971 no álbum Blue). Em algumas das performances ao vivo de “Going To California”, Plant costumava dizer “Joni” após a frase “To find the queen without a king they say she plays guitar and cries and sings”.

When The Levee Breaks

Originalmente gravada pelos blueseiros Kansas Joe McCoy e Memphis Minnie, a letra da última faixa de Led Zeppelin IV tem como base o grande dilúvio de 1927 no Mississippi (Great Mississippi Flood of 1927), que devastou o Estado e algumas áreas vizinhas, além de destruir casas e a economia agrícola da Bacia do Mississippi.

A maior consequência da catástrofe foi a migração forçada de negros e africanos, que acabaram ficando sem trabalho na região. A partir daí, novas e velhas cantigas do delta blues começaram a se popularizar em diversas regiões do país, incluindo “When The Levee Breaks” que, nas mãos do Led Zeppelin, recebeu um tratamento de peso.

É isso.

“Houses of the Holy”, o quinto álbum de estúdio do Led Zeppelin

Talvez Houses of the Holy não seja a obra-prima do Led Zeppelin (muitos, inclusive este que vos escreve, apontam para Physical Graffiti, lançado dois anos depois), mas vários fatores fazem com que o quinto LP da banda seja o mais especial em sua curta discografia.

Lançado em 28 de março de 1973 pela Atlantic Records, Houses foi o primeiro trabalho do grupo apenas com material próprio, incluindo faixas assinadas por todos os integrantes.

A mistura equilibradíssima de funk (“The Crunge”), pop (“Dancing Days”) e o primeiro arranjo acompanhado por cordas (“The Rain Song”) mostrava que a banda estava no auge.

A capa

A arte de Houses of the Holy foi produzida pelo estúdio Hipgnosis (que ainda trabalhou com Pink Floyd, AC/DC, Peter Gabriel, entre outros), a partir de uma fotografia clicada em Giant’s Causeway, Irlanda do Norte.

O acabamento final da capa ficou a cargo de Aubrey Powell, que buscou inspiração no livro Childhood’s End, de Arthur C. Clarke (um dos roteiristas de 2001: Uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick), publicado em 1953, com temas alienígenas.

Entre outras passagens, a história menciona um grupo de crianças aguardando o momento de serem levadas para o espaço.

Apenas dois modelos mirins participaram das sessões fotográficas: os irmãos Stefan e Samantha Gates.

Mas vamos ao que interessa, as faixas de Houses of the Holy, do Led Zeppelin.

The Song Remains The Same

Faixa título do primeiro LP ao vivo da banda, lançado em 1976. A escolha numérica também não foi à toa: para Robert Plant, autor da letra, a música não possui barreiras – como fica claro no trecho “Any little song that you know. Everything that’s small has to grow”.

The Rain Song

Reza a lenda que a origem de “The Rain Song” vem de uma conversa entre George Harrison e John Bonham (além de amigo dos integrantes, o ex-bealte era fã declarado da banda).

George teria dito que o problema do Led Zeppelin eram as poucas baladas presentes nos álbuns do grupo. Bonzo levou a ideia para os companheiros de banda, que gravaram “The Rain Song”, uma das primeiras (e poucas) composições assinadas por Page, Plant, Jones e Bonham.

Over The Hills And Far Away (single)

Uma evolução direta de “White Summer”, número acústico executado por Jimmy Page nos tempos de Yardbirds (ouça abaixo).

Inspirada nos ancestrais celtas do guitarrista, “Over The Hills And Far Away” passou a ser apresentada nos shows do The New Yardbirds e, consequentemente, pelo Led Zeppelin.

The Crunge

Fruto de uma entre tantas jam sessions da banda. Tudo começou quando John Bonham, um grande fã de funk e soul, deu início à levada de bateria, seguido por John Paul Jones (que improvisou uma linha swingada de contrabaixo), Jimmy Page (que imitou um riff qualquer de alguma canção de James Brown), e Robert Plant (que simplesmente começou a cantar).

Entre os 11 e 13 segundos, é possível ouvir a guitarra de Page testando o acorde para ver se funcionava nos arranjos.

A linha “Ain’t gonna call me Mr. Pitiful, no I don’t need no respect from nobody” faz referência a “Mr. Pitiful”, faixa de Otis Redding, outro mestre da soul music.

Dancin’ Days

Uma das músicas mais descontraídas do Led Zeppelin, inspirada em alguma melodia ouvida por Robert Plant e Jimmy Page durante sua viagem para Bombaim, Índia.

Os músicos teriam ficado tão empolgados com o resultado da gravação que saíram dançando pelo gramado, do lado de fora dos estúdios Stargroves. Daí o nome da canção.

D’yer Mak’er (single)

Uma tentativa de soar como as bandas jamaicanas de reggae e dub que começavam a fazer sucesso na Inglaterra dos anos 1970. Junto com “The Crunge”, pode ser considerada uma das faixas mais brincalhonas do álbum.

Para amenizar as violentas batidas de John Bonham no bumbo, os microfones foram posicionados a uma certa distância da bateria, para melhor captura do som.

“D’yer Mak’er” também entra na lista de canções nunca executadas ao vivo pelo Led Zeppelin.

No Quarter

Composta por John Paul Jones, Jimmy Page e Robert Plant, mostra a versatilidade do baixista ao lidar com arranjos envolvendo piano e sintetizadores.

O título faz referência a uma antiga (e violenta) prática militar usada por soldados britânicos (que quando mencionavam “No Quarter”, na verdade queriam dizer “No Mercy”).

The Ocean

A frase que ouvimos no início é do baterista John Bonham (“We’ve done four already, but now we’re steady and then they went, 1, 2, 3, 4”), que se refere ao número de takes executados até o momento (ou seja, quatro tentativas sem sucesso).

O título é uma homenagem ao mar de pessoas que costumavam ser vistas nos shows do Led Zeppelin.

Durante o último minuto da faixa, com muita atenção podemos ouvir o único vocal feito por John Paul Jones e John Bonham (harmonizando com a frase “Doo Wop”).

Finalmente, a íntegra de Houses of the Holy.