“Hail to the Thief”, o sexto álbum de estúdio do Radiohead

Em 10 de junho de 2003, o Radiohead lançava Hail to the Thief, sexto álbum do grupo. Influenciado pela política de George W. Bush, Thom Yorke e companhia voltam a introduzir guitarras em suas canções, com forte engajamento político (sendo o último lançamento pela gravadora Parlophone).

Produzido por Nigel Godrich, o conteúdo de Hail to the Thief acabou vazando pelas redes da blogosfera 10 semanas antes de seu lançamento. Mas isso não prejudicou a banda, pelo contrário: fez com que o álbum fosse parar direto no topo das paradas musicais britânicas (cravando o terceiro lugar nos Estados Unidos). Coisas do meio técnico-científico-informacional.

No ano seguinte, após milhões de cópias vendidas, o LP foi indicado ao Grammy na categoria Melhor Álbum Alternativo, mas acabou perdendo. Nigel Godrich e Darrel Thorp, no entanto, levaram a estatueta de Melhor Engenharia de Som. Na sequência, você fica sabendo sobre um pouco mais de cada faixa de Hail to the Thief, um dos trabalhos mais especiais do Radiohead.

2 + 2 = 5 (The Lukewarm.)

Faixa que inspirou o nome do disco, faz uma alusão ao então presidente dos EUA, que teria roubado as eleições do ano 2000. O plug que ouvimos no início também não foi à toa. “2+2=5” foi a primeira gravação das sessões de Hail to the Thief.

A letra fala sobre coisas que não fazem sentido. Não necessariamente, pelo menos, como janeiro com chuvas de abril, dois e dois são cinco e até o termo “Hail to the Thief” no lugar de “Hail to the Chief”, hino oficial presidencial dos Estados Unidos.

Uma curiosidade literária de “2+2=5” é a referência ao livro 1984, de George Orwell. No romance, o Big Brother incentiva as pessoas a rejeitar todos os conceitos previamente aprendidos, como o habitual 2 + 2 = 4.

Outra característica frequente nas canções do Radiohead são os compassos que vão na contramão dos tradicionais 4/4, 12/8 ou ¾. Sobre isso, o guitarrista Ed O’Brien certa vez declarou: “Uma das coisas que marcam a nossa banda – e que Thom e Jonny costumam levar para casa sempre – é soar diferente. Você pode fazê-lo através de coisas como o uso de intervalos incomuns nas harmonias. O problema de muitas canções roqueiras é que as pessoas continuam fazendo as harmonias de Beatles e Crosby, Stills, Nash & Young. Você não pode simplesmente continuar repetindo essas coisas.”

Assim como todas as faixas de Hail to the Thief, “2+2=5” possui um subtítulo. Neste caso, “The Lukewarm”.

Sit Down. Stand Up. (Snakes & Ladders.)

Composição iniciada cinco anos antes de Hail To The Thief, foi inspirada pelas notícias do genocídio em Ruanda. Traz mais influências literárias de Thom Yorke, como algumas frases inspiradas no épico O Inferno de Dante, de Dante Alighieri, e referências cristãs, como a luta entre o bem e o mal.

Sail To The Moon. (Brush the Cobwebs Out of the Sky.)

Aqui, Thom Yorke mostra grande preocupação com o filho, que cresce em meio a diversas crises políticas espalhadas pelo mundo (“Talvez você seja presidente / Mas saiba o que é certo e errado”). Novas referências cristãs surgem através da frase “Ou na enchente / Você construirá uma arca / E navegaremos até a lua”.

Apesar de ter sido lançada em Hail To The Thief, “Sail To The Moon” já figurava nos shows do Radiohead entre 2001 e 2002.

Backdrifts. (Honeymoon Is Over.)

“Ficamos presos em uma tempestade de neve no Japão. Foi a coisa mais linda que eu jamais tinha visto. A neve estava acumulando espessamente nos ramos, um trem estava passando e a neve entraria em colapso. O mundo inteiro estava coberto de neve, com exceção de alguns pontos pretos e brancos. Este é o lugar de onde ela [a canção] veio. As palavras vêm desta imagem”.

Palavras de Thom Yorke.

Go to Sleep. (Little Man Being Erased.)

Conduzida pelo riff acústico de Colin Greenwood, “Go to Sleep.” apresenta novas novas referências do universo literário do Radiohead, dessa vez recorrendo ao romance As Viagens de Gulliver, do escritor irlandês Jonathan Swift.

Where I End and You Begin. (The Sky Is Falling In.)

Dedicada a Jeanne Loriod, que morreu em agosto de 2001. Para quem não sabe, Jeanne foi uma da percursoras das Ondas Martenot, instrumento eletrônico utilizado por Jonny Greenwood ao longo de várias canções em Hail to the Thief.

We Suck Young Blood. (Your Time Is Up.)

No início de 2003, uma das táticas publicitárias do Radiohead em relação ao novo álbum (que ainda seria lançado) foi brincar de caça talentos. A banda espalhou cartazes em Londres e Los Angeles com slogans tirados da faixa “We Suck Young Blood”: (“Hungry? Sick? Begging for a break? Sweet? Fresh? Strung up by the wrists? We want young blood. Call 1-800-YOUNG-BLOOD”).

Quem ligasse para o número divulgado na propaganda, ouviria uma mensagem gravada, mencionando uma tal de “Hail to the Thief linha direta de atendimento ao cliente”.

Novamente influenciados pelo romance 1984, de George Orwell, o grupo faz uma crítica à exploração de jovens talentos pela indústria de Hollywood.

The Gloaming. (Softly Open Our Mouths in the Cold.)

Faixa construída sob efeitos de loop. Pelo menos na versão do álbum, nenhum instrumento foi utilizado em “The Gloaming”, com exceção da voz de Thom Yorke, que declarou “Eu não sei se você tem esse tipo de experiência no seu trabalho, mas no meu, você encontra pessoas que deixaram de ser seres humanos. Você vê, num escritório há sempre um idiota ambicioso que simplesmente não se importa se ele causa algum prejuízo a qualquer um e quem realmente pensa que ele tem o direito de fazê-lo. Ou, se você encontrar um político poderoso, é como um aperto de mão vazio. O tornado de olhos vazios. Para mim, ‘The Gloaming’, explora essa escuridão enferma que parece ser impossível de se bloquear”.

There There. (The Boney King of Nowhere.)

A frase “Just cause you feel it, doesn’t mean it’s there” resume a mensagem da música. Cuidado ao alimentar certas ilusões, não importa quão tentadoras elas possam parecer. Só porque você sente isso, não significa que elas estejam lá.

I Will. (No Man’s Land.)

A estranha sensação de inversão nos arranjos tem fundamento. A melodia de “I Will” é nada menos do que uma variação de “Like Spinning Plates”, lançada em 2001 no álbum Amnesiac.

Assim como em “Sail to the Moon”, a letra de “I Will” fala sobre uma criança (outra clara referência ao filho de Thom Yorke) e os perigos da guerra nuclear (“I will lay me down in a bunker underground / I won’t let this happen to my children meet the real world coming out of your shell”).

Apesar de tudo, “I Will” é mais antiga do que se pensa. No vídeo Meeting People Is Easy, de 1998, é possível ouvir a banda ensaiando os primeiros acordes da música.

A Punch-Up At A Wedding. (No No No No No No No No.)

Reza a lenda que a principal inspiração para “A Punch-Up At A Wedding” teria sido uma crítica negativa sobre um show em Oxford, terra natal da banda. Para os integrantes, foi um dos melhores momentos do Radiohead no palco. Logo, o(a) jornalista não poderia ter escrito o que escreveu.

De fato, uma canção que começa com “Não não não não não não não não não não não não não não não não / Eu não sei por que você se incomoda / Nada é sempre bom o suficiente para você / Eu estava lá e não foi assim não exige muita esforço de interpretação.

Myxomatosis. (Judge, Jury & Executioner.)

Na década de 1990, a Inglaterra passou dificuldades ao lidar com um surto de mixomatose, doença que costuma atacar coelhos. Thom Yorke narra uma história bastante exótica envolvendo um gato vira-lata que pensa ter se dado bem, mas que termina muito mal.

Mas talvez a principal razão de o Radiohead falar sobre mixomatose em uma canção seja O Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams (leia a página que menciona a doença logo abaixo).

Scatterbrain. (As Dead as Leaves.)

Outra faixa inspirada nas notícias internacionais acompanhadas freneticamente por Thom Yorke, que costumava fazer caminhadas usando um rádio portátil para não perder um lance.

A literatura volta a se fazer presente com a frase “Yesterday’s headlines blown by the wind”, influenciada pelo livro V, de Thomas Pynchon.

A Wolf at the Door. (It Girl. Rag Doll.)

Thom Yorke escreveu a letra de “A Wolf at the Door” no trem, enquanto voltava pra casa com um grupo de playboys bêbados no mesmo vagão (City boys in first class/ Someone else is gonna come and clean it up”).

A frase “Get the flan in the face” faz uma referência ao famoso episódio da torta na cara de Clare Short, secretária do governo Tony Blair que renunciou durante a invasão ao Iraque.

E assim repassamos todas as faixas de Hail to the Thief. Como prêmio aos leitores que tiveram paciência para chegar até aqui, eis o áudio completo do disco. Enjoy.

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